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O dinheiro é coletivo. Mas quem manda nele?
Uma das coisas mais interessantes que tenho aprendido sobre governança é que compartilhar recursos não significa, necessariamente, compartilhar poder.
Parece óbvio. Mas essa distinção ajuda a explicar por que tantas iniciativas coletivas acabam reproduzindo as mesmas estruturas de concentração de poder que pretendiam superar.
Em 1992, Edella Schlager e Elinor Ostrom publicaram um estudo que distingue cinco tipos de direitos sobre recursos compartilhados:
Acesso: entrar e usufruir de um sistema de recursos.
Retirada: extrair ou utilizar unidades desse recurso.
Gestão: determinar como o recurso será utilizado e administrado.
Exclusão: decidir quem pode participar e sob quais condições.
Alienação: transferir direitos de gestão ou exclusão para outros.
A descoberta importante está na diferença entre utilizar um recurso e definir as regras que determinam sua utilização.
Imagine um fundo comunitário de R$ 20 mil.
A comunidade pode apresentar propostas e votar na distribuição dos recursos. Mas somente três pessoas controlam a conta bancária.
Até aí, nada necessariamente errado.
O problema começa quando não sabemos se essas três pessoas têm apenas a responsabilidade de executar decisões ou também a autoridade para modificá-las.
E se a comunidade aprovar algo que os responsáveis pelo dinheiro não concordam em executar?
E se os responsáveis fizerem uma transferência que ninguém autorizou?
E quem tem o direito de modificar as próprias regras?
Percebe como não estamos mais discutindo apenas dinheiro?
Estamos discutindo a distribuição de direitos, responsabilidades e autoridade.
Elinor Ostrom, vencedora do Nobel de Economia em 2009, demonstrou por meio de estudos sobre recursos compartilhados que comunidades podem desenvolver instituições duradouras para administrar seus recursos sem depender exclusivamente de privatização ou controle estatal.
Mas isso não acontece simplesmente porque as pessoas compartilham boas intenções.
Instituições robustas costumam apresentar regras adequadas às condições locais, participação dos envolvidos na definição dessas regras, monitoramento, mecanismos de resolução de conflitos e responsabilidades reconhecidas.
Existe ainda outra distinção fundamental: as regras escritas não são necessariamente as regras que governam.
Uma organização pode declarar que suas decisões são democráticas, enquanto, na prática, apenas algumas pessoas possuem informação, acesso e capacidade de execução.
É nas chamadas regras em uso que descobrimos como a governança realmente funciona.
Isso muda bastante minha maneira de compreender os commons.
Um recurso não se torna um bem comum governado coletivamente apenas porque está disponível para várias pessoas. É preciso observar quem possui quais direitos, como esses direitos são exercidos e como o próprio sistema de regras pode ser modificado.
Talvez uma das perguntas mais importantes para qualquer iniciativa comunitária não seja simplesmente:
"Quem decide?"
Mas:
"Quem tem o poder de definir como decidimos?"
E, tão importante quanto isso, quem pode verificar se nossas decisões estão sendo cumpridas?
---
Para aprofundar:
Elinor Ostrom (1990). Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action.
Edella Schlager & Elinor Ostrom (1992). Property-Rights Regimes and Natural Resources: A Conceptual Analysis. DOI: 10.2307/3146375
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O dinheiro é coletivo. Mas quem manda nele?
Uma das coisas mais interessantes que tenho aprendido sobre governança é que compartilhar recursos não significa, necessariamente, compartilhar poder.
Parece óbvio. Mas essa distinção ajuda a explicar por que tantas iniciativas coletivas acabam reproduzindo as mesmas estruturas de concentração de poder que pretendiam superar.
Em 1992, Edella Schlager e Elinor Ostrom publicaram um estudo que distingue cinco tipos de direitos sobre recursos compartilhados:
Acesso: entrar e usufruir de um sistema de recursos.
Retirada: extrair ou utilizar unidades desse recurso.
Gestão: determinar como o recurso será utilizado e administrado.
Exclusão: decidir quem pode participar e sob quais condições.
Alienação: transferir direitos de gestão ou exclusão para outros.
A descoberta importante está na diferença entre utilizar um recurso e definir as regras que determinam sua utilização.
Imagine um fundo comunitário de R$ 20 mil.
A comunidade pode apresentar propostas e votar na distribuição dos recursos. Mas somente três pessoas controlam a conta bancária.
Até aí, nada necessariamente errado.
O problema começa quando não sabemos se essas três pessoas têm apenas a responsabilidade de executar decisões ou também a autoridade para modificá-las.
E se a comunidade aprovar algo que os responsáveis pelo dinheiro não concordam em executar?
E se os responsáveis fizerem uma transferência que ninguém autorizou?
E quem tem o direito de modificar as próprias regras?
Percebe como não estamos mais discutindo apenas dinheiro?
Estamos discutindo a distribuição de direitos, responsabilidades e autoridade.
Elinor Ostrom, vencedora do Nobel de Economia em 2009, demonstrou por meio de estudos sobre recursos compartilhados que comunidades podem desenvolver instituições duradouras para administrar seus recursos sem depender exclusivamente de privatização ou controle estatal.
Mas isso não acontece simplesmente porque as pessoas compartilham boas intenções.
Instituições robustas costumam apresentar regras adequadas às condições locais, participação dos envolvidos na definição dessas regras, monitoramento, mecanismos de resolução de conflitos e responsabilidades reconhecidas.
Existe ainda outra distinção fundamental: as regras escritas não são necessariamente as regras que governam.
Uma organização pode declarar que suas decisões são democráticas, enquanto, na prática, apenas algumas pessoas possuem informação, acesso e capacidade de execução.
É nas chamadas regras em uso que descobrimos como a governança realmente funciona.
Isso muda bastante minha maneira de compreender os commons.
Um recurso não se torna um bem comum governado coletivamente apenas porque está disponível para várias pessoas. É preciso observar quem possui quais direitos, como esses direitos são exercidos e como o próprio sistema de regras pode ser modificado.
Talvez uma das perguntas mais importantes para qualquer iniciativa comunitária não seja simplesmente:
"Quem decide?"
Mas:
"Quem tem o poder de definir como decidimos?"
E, tão importante quanto isso, quem pode verificar se nossas decisões estão sendo cumpridas?
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Para aprofundar:
Elinor Ostrom (1990). Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action.
Edella Schlager & Elinor Ostrom (1992). Property-Rights Regimes and Natural Resources: A Conceptual Analysis. DOI: 10.2307/3146375
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O dinheiro é coletivo. Mas quem manda nele?
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Uma das coisas mais interessantes que tenho aprendido sobre governança é que compartilhar recursos não significa, necessariamente, compartilhar poder.
Parece óbvio. Mas essa distinção ajuda a explicar por que tantas iniciativas coletivas acabam reproduzindo as mesmas estruturas de concentração de poder que pretendiam superar.
Em 1992, Edella Schlager e Elinor Ostrom publicaram um estudo que distingue cinco tipos de direitos sobre recursos compartilhados:
Acesso: entrar e usufruir de um sistema de recursos.
Retirada: extrair ou utilizar unidades desse recurso.
Gestão: determinar como o recurso será utilizado e administrado.
Exclusão: decidir quem pode participar e sob quais condições.
Alienação: transferir direitos de gestão ou exclusão para outros.
A descoberta importante está na diferença entre utilizar um recurso e definir as regras que determinam sua utilização.
Imagine um fundo comunitário de R$ 20 mil.
A comunidade pode apresentar propostas e votar na distribuição dos recursos. Mas somente três pessoas controlam a conta bancária.
Até aí, nada necessariamente errado.
O problema começa quando não sabemos se essas três pessoas têm apenas a responsabilidade de executar decisões ou também a autoridade para modificá-las.
E se a comunidade aprovar algo que os responsáveis pelo dinheiro não concordam em executar?
E se os responsáveis fizerem uma transferência que ninguém autorizou?
E quem tem o direito de modificar as próprias regras?
Percebe como não estamos mais discutindo apenas dinheiro?
Estamos discutindo a distribuição de direitos, responsabilidades e autoridade.
Elinor Ostrom, vencedora do Nobel de Economia em 2009, demonstrou por meio de estudos sobre recursos compartilhados que comunidades podem desenvolver instituições duradouras para administrar seus recursos sem depender exclusivamente de privatização ou controle estatal.
Mas isso não acontece simplesmente porque as pessoas compartilham boas intenções.
Instituições robustas costumam apresentar regras adequadas às condições locais, participação dos envolvidos na definição dessas regras, monitoramento, mecanismos de resolução de conflitos e responsabilidades reconhecidas.
Existe ainda outra distinção fundamental: as regras escritas não são necessariamente as regras que governam.
Uma organização pode declarar que suas decisões são democráticas, enquanto, na prática, apenas algumas pessoas possuem informação, acesso e capacidade de execução.
É nas chamadas regras em uso que descobrimos como a governança realmente funciona.
Isso muda bastante minha maneira de compreender os commons.
Um recurso não se torna um bem comum governado coletivamente apenas porque está disponível para várias pessoas. É preciso observar quem possui quais direitos, como esses direitos são exercidos e como o próprio sistema de regras pode ser modificado.
Talvez uma das perguntas mais importantes para qualquer iniciativa comunitária não seja simplesmente:
"Quem decide?"
Mas:
"Quem tem o poder de definir como decidimos?"
E, tão importante quanto isso, quem pode verificar se nossas decisões estão sendo cumpridas?
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Para aprofundar:
Elinor Ostrom (1990). Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action.
Edella Schlager & Elinor Ostrom (1992). Property-Rights Regimes and Natural Resources: A Conceptual Analysis. DOI: 10.2307/3146375